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Carlos Roberto Horta
Coordenador do Núcleo de Estudos sobre o Trabalho Humano (Nesth/UFMG)
Colaboraram: Flávia Assis Alves e Júlio Jáder Costa, tecnólogos sociais da Incubadora de Economia Solidária do Nesth

É natural a utilização mais intensa do adjetivo “social” nos períodos de maior ocorrência de políticas públicas de inclusão, que se vêm multiplicando no País, nos últimos anos, sobretudo a partir de 2003. Portanto, nada mais compreensível que os profissionais envolvidos procurem desenvolver reflexões a respeito da construção dessas políticas de inclusão. 

Na universidade, a questão que se coloca é a de como desenvolver uma tecnologia capaz de promover inclusão social e de tornar sustentáveis as organizações autogestionárias que ela deve implementar. Essa questão desdobra-se em outras como, por exemplo, saber se é totalmente com bases na tecnologia convencional que se vai gerar a tecnologia social ou, ainda, como fazer para começar o engajamento real da Instituição em tarefa tão difícil quanto urgente para países como o Brasil. 

Sem dúvida, a tecnologia social começa pela construção de seus próprios instrumentos, suas próprias ferramentas de trabalho, em função do diálogo com a sociedade civil organizada, numa busca conjunta de práticas de intervenção social que possam contribuir para a melhoria das condições de vida da população. 

Maria do Céu Diel

Nesth, uma experiência Neste texto, apresenta-se uma modalidade de construção dessa tecnologia por intermédio do Núcleo de Estudos sobre o Trabalho Humano (Nesth) da UFMG. O órgão vem desenvolvendo, desde a sua fundação, atividades interdisciplinares que visam à construção do conceito de tecnologia social sustentada por metodologia que combina pesquisa/ação, análise de experiências e seminários para o aprofundamento e sistematização de conhecimentos sobre o tema.

Atuante na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) desde 1979, com o nome de Laboratório de Movimentos Sociais Urbanos, este organismo participou de um momento singular da história nacional, marcado pela efervescência das lutas pela redemocratização, mediante um amplo leque de ações que envolvia greves operárias, defesa dos direitos políticos e inserção comunitária. A partir de 1984, já designado Nesth, constituiu-se num acontecimento que resultou na consolidação institucional de uma relação entre universidade e sociedade, por meio de pesquisas e intervenções sociopolíticas. 

Desde o início, o Núcleo serviu de base para um grande número de estudos sobre temáticas relacionadas ao mundo do trabalho – entre as quais, destacam-se a crise do emprego e a desestruturação do mercado de trabalho, decorrentes da globalização neoliberal, que operou mudanças na base técnica da produção, acarretando desemprego em massa. Em sua trajetória, que sempre priorizou a relação educação/trabalho, o Nesth promoveu, nos últimos 20 anos, diversas pesquisas sistemáticas sobre a qualificação profissional no Brasil. 

Em 1996, o Nesth passou a trabalhar com a Rede Unitrabalho, que agrega 92 universidades brasileiras. Nessa Rede, tornou-se responsável pela coordenação regional da pesquisa Tendências da Economia Solidária no Brasil, (1998-2001), realizada sob a coordenação nacional do professor Paul Singer. Desde então, o Núcleo vem realizando estudos sistemáticos sobre a economia solidária em Minas Gerais, inicialmente com trabalhadores de empresas de autogestão no ramo metalúrgico, momento em que foram identificadas ações direcionadas à economia solidária, que ocorriam de forma isolada e sem interlocução em outros departamentos da UFMG. Pela execução do Projeto Cenafoco, em parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) e a Escola Sindical 7 de Outubro, foi aprofundada a interlocução das ações em economia solidária do Nesth/UFMG com as incubadoras de gestão do Departamento de Engenharia de Produção e do programa Pólos de Cidadania da Faculdade de Direito, além da Agência de Empreendedorismo da Faculdade de Ciências Econômicas, com o apoio da Pró-reitoria de Extensão. Desse modo, foram criadas condições para que o projeto da Incubadora de Socioeconomia Solidária da UFMG fosse incorporado ao Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas (Proninc-2), da Senaes, em 2004. 

Com essa nova configuração, a Incubadora de Socioeconomia Solidária da UFMG passou a contar com o repertório de experiências em processos de qualificação profissional, acumulados ao longo da história do Nesth, que culminaram com a coexecução regional do projeto Construção de um Modelo de Avaliação e Monitoramento do Plano Nacional de Qualificação, coordenado nacionalmente pela Unitrabalho – MTE/2003 e 2004.

De agosto de 2004 a janeiro de 2006, por intermédio dessa Incubadora, o Nesth acompanhou oito grupos de trabalhadores, em regiões periféricas de Belo Horizonte caracterizadas como de alta vulnerabilidade social. Destaca-se, ainda, a execução, em 2004-2005, do Projeto de Reinserção Social dos Egressos do Sistema Penitenciário de Minas Gerais, mediante parceria firmada entre a Secretaria Estadual de Defesa Social e o Departamento Penitenciário Nacional (Depen/Ministério da Justiça), oportunidade em que foram desenvolvidas ações de inclusão produtiva, pela alocação desse público em organizações acompanhadas pela Incubadora. 

Projetos Para 2006, a atuação da Incubadora Nesth/UFMG prevê ações de disseminação de tecnologia social de incubação de organizações de economia solidária em dois focos:
a) nos vales do Jequitinhonha e de Mucuri, por meio do Projeto Incubadora Nevales/UFVJM/Unitrabalho, considerando as diretrizes do plano de desenvolvimento local sustentável e a parceria com a Agência Mesovales (Proninc); e
b) na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), onde serão executados dois projetos: Inclusão Cidadã no Aglomerado da Serra, em parceria com a Companhia Urbanizadora de Belo Horizonte (Urbel/PBH), e Inclusão Produtiva de Jovens, em parceria com a Prefeitura de Contagem e apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e do Ministério do Desenvolvimento Social. Este projeto prevê a construção do Laboratório de Tecnologia Social em Contagem, que será fortalecido por uma rede potencializadora, com o objetivo de alicerçar toda a sua execução. Consiste em organizações, programas e ações de promoção social, educação, saúde, cultura, trabalho, públicos e privados, que representem iniciativas relevantes e que favoreçam o atendimento, o desenvolvimento e a inclusão do público-alvo.

Como se pode perceber, o conceito de tecnologia social, em função dessas experiências, resulta de um trabalho coletivo, que encontra sustentação e legitimidade no diálogo com a sociedade. E, principalmente, no diálogo com as entidades da sociedade civil organizada e na observação de seu modo de ação que nasce a percepção da tecnologia social como um princípio que pode definir práticas de intervenção social que se destaquem pelo êxito na melhoria das condições de vida da população, construindo soluções participativas, estreitamente ligadas às realidades locais em que forem aplicadas.

Publicado na Revista da Universidade Federal de Minas Gerais Ano 5 - nº. 10 - outubro de 2006

Pensar o Ambiente: bases filosóficas para a Educação Ambiental. Organização: Isabel Cristina Moura de Carvalho, Mauro Grün e Rachel Trajber. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, UNESCO, 2006.

Lançada pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade (Secad), no âmbito do Ministério da Educação, e pela UNESCO, em 2004, a Coleção Educação para Todos inclui o livro Pensar o Ambiente: bases filosóficas para a Educação Ambiental que se delineou em torno do objetivo de apresentar alguns pontos importantes no pensamento ocidental moderno e suas relações com os modos de pensar o ambiente. Os articulistas escolheram trabalhar seus artigos com uma linguagem menos técnica, sem deixar de respeitar o discurso filosófico. Isso aparece de duas formas, uma na escrita de textos curtos e a outra, procurando deixar os filósofos falarem por si, “no original”. Na impossibilidade de transcrição de excertos na íntegra, foram utilizadas passagens representativas das teorias estudadas, bem como inseridas citações mais longas e ilustrativas do estilo e do pensamento filosófico. Por conseguinte, o tom desses diversos ‘pensares’ sobre o ambiente são de natureza filosófica e nos levam a refletir sobre a possibilidade de construirmos uma nova ética - a Ética Ambiental. Este pensamento torna-se essencial nestes tempos de enfrentamento da grave crise ambiental e de valores que se desvenda aos nossos olhos contemporâneos. Os filósofos sobre os quais versam os textos são: Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, os Pré-Socráticos, Martin Heidegger, Francis Bacon, René Descartes, Hans-Georg Gadamer, Benedito Espinosa, Jean-Jacques Rousseau,Immanuel Kant, Karl Marx, Sigmund Freud, Donald Winnicott, Lev Vygotsky, Hannah Arendt e Paulo Freire.

CONCEIÇÃO, Maria Collares Felipe da (coord.) 20 anos da Constituição Federal: trajetória do direito ambiental. Rio de Janeiro: EMERJ, 2008.

Atualmente, a humanidade enfrenta as conseqüências da mudança climática, agora uma realidade comprovada cientificamente. A esse fenômeno está atrelada a falta de alimentos para grande parte da população. Entretanto, enquanto os países desenvolvidos integrantes do G8 discutem o prazo para a redução das emissões dos gases de efeito estufa, com o objetivo de manter o crescimento econômico, relegam a segundo plano as necessidades humanas básicas, capazes de proporcionar uma existência digna. Uma delas é a educação, por ser imprescindível promover a educação ambiental, propulsora do desenvolvimento sustentado. Aliada a educação básica, ela será capaz de fazer com que cada pessoa dê a sua contribuição à preservação de um ambiente sadio, agindo em relação umas as outras com espírito de fraternidade, orientadas artigo I da DECLARAÇÃO UNIVERSAL DE DIREITOS HUMANOS. É difícil, mais não é impossível, porque, no ensinamento do Mestre Morya, “o que é inatingível hoje vem com facilidade amanhã”. Só é preciso dar os primeiros passos para alcançarmos a solidariedade oriunda de corretas relações humanas e, assim, preservar a qualidade de vida do planeta.

PÁDUA, J. A. (org). Desenvolvimento, justiça e meio ambiente. São Paulo: Peirópolis; Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2009.

Este livro está sendo oferecido à opinião pública brasileira como um instrumento de educação cidadã e de debate sobre o presente e o futuro do Brasil. Ele reúne textos de um grupo diversificado de pesquisadores e intelectuais que vêm participando desse debate, respeitando a independência de posicionamento e enfoque presente na reflexão de cada autor. Não se trata, por certo, de buscar uma uniformidade de visão, mas sim um compartilhamento de preocupações e anseios pela construção de um país melhor.

O objetivo dos autores e dos promotores do livro, como mencionado anteriormente, foi apenas o de estimular um debate aberto, franco, não dogmático e inovador sobre o destino da sociedade e do território brasileiros.

PELIZZOLI, M.L. A emergência do paradigma ecológico: reflexões ético-filosóficas para o século XXI. Petrópolis: Vozes, 1999.

Em raros momentos pode-se constatar tamanha ruptura de padrões e de modelos éticos fundamentadores do paradigma civilizatório. Não obstante, tal ruptura traz a possibilidade da visão ético-holística, da interdependência dos seres, de sensibilidade humana e sabedoria para sustentabilidade.

Neste sentido, faz-se aqui uma arqueologia crítica da postura moderna científica – industrial e desenvolvimentista evocada em vista do século carregado de paradoxais “conquistas” anti-socioambientais, e do fracasso indubitável de um modelo de Razão.

Pergunta-se: será possível ainda, diante de tantos fatos que se conjugam, não considerar a transformação, a qual faz despontar a necessidade de um  novo paradigma, de solidariedade/ solidificação de um “projeto socioambiental do século XXI?” Adiar-se-á a conscientização e a efetividade que resgate a interação com os fatores do ambiente e da cultura – enquanto seres num planeta único e de relações vivas- Gaia?”

Esta obra inscreve-se no espírito do tempo, de emergência esperançosa; onde nunca foi tão crucial implementar o pensamento e ação fundamentada e integradora.

Núcleo de Referência em Educação Ambiental

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